27/11/2021

China alertou que falta de agilidade privou Brasil de insumos médicos

Um telegrama do embaixador do Brasil na China enviado em março de 2020 ao Itamaraty alertou o governo federal sobre as consequências da demora brasileira em se coordenar para comprar insumos médicos. Deu como exemplo a falta de resposta do Ministério da Saúde a uma oferta de máscaras, que, duas semanas depois, ficaram 70% mais caras.

Nossas Rádios

Os primeiros meses de 2020 foram de disputa no mundo inteiro pelos insumos necessários para lidar com o coronavírus, como respiradores, máscaras e remédios. Uma das principais fornecedoras de equipamentos e insumos médicos, a China não conseguiu suprir a rápida demanda e atrasou entregas para entidades públicas e privadas no Brasil, agravando a resposta à pandemia.

Atendendo a pedidos de seus chefes, o embaixador Paulo Estivallet de Mesquita reuniu-se, em 27 de março de 2020, com Liu Jingzhen, presidente da maior empresa estatal chinesa de insumos médicos, a Sinopharm, que naquele momento era responsável pela coordenação das exportações do país no setor.

“Terá contribuído para a presteza em nos receber o telefonema entre o senhor presidente da República [Jair Bolsonaro] e o presidente chinês, Xi Jinping, cujo significado para a fluidez da relação bilateral não pode ser subestimado”, ressaltou o embaixador do Brasil na China.

Bolsonaro havia ligado para Jinping na semana anterior, após constrangimento diplomático causado por seu filho, Eduardo Bolsonaro (deputado federal pelo PSL-SP), que havia retuitado postagens culpando o governo chinês pela disseminação do coronavírus.

As dificuldades

Na época, governos estaduais e prefeituras buscavam comprar equipamentos e insumos diretamente de empresas chinesas, e já reclamavam da falta de iniciativa do Ministério da Saúde, à época comandado ainda por Luiz Henrique Mandetta.

Segundo o embaixador, “a Sinoharm enfatizou que, do lado brasileiro, seria importante que os pedidos (…) fossem centralizados em uma única entidade e que houvesse uma interlocução habilitada a reagir tempestivamente. O risco de haver demora na reação brasileira ou de se lidar com múltiplos interlocutores seria que o lado chinês decida as prioridades ou deixe de atender o Brasil por falta de agilidade para concluir contratos”.

Mesquita escreveu ainda que os preços estavam “muito voláteis, e que as cotações são válidas por no máximo dois ou três dias. Como exemplo, disse [a empresa] que o Ministério da Saúde pediu uma cotação de 20 milhões de máscaras cirúrgicas e 5 milhões de máscaras N95 em 18/3, mas não reagiu. Desde então, os preços teriam subido 70%”.

“Em suma”, concluiu o embaixador Paulo Estivallet de Mesquita no telegrama em poder dos membros da CPI, “o que um dos executivos pontuou ao final da reunião é que as decisões devem ser tomadas de forma rápida, pois os preços vão subindo e o transporte vai sumindo”.

Outro lado

Procurado para comentar o exemplo do presidente da Sinopharm, o Ministério da Saúde alegou que “realiza a aquisição de insumos com o melhor preço de mercado” e que, “na compra das 20 milhões de máscaras cirúrgicas três camadas, foi pago o valor de R$ 2,08 a unidade. Já as máscaras N95 não foram adquiridas naquela ocasião, pois a menor proposta recebida foi de R$ 12,60 a unidade, preço superior à média de mercado, e às próprias compras realizadas pelo ministério à época”.

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