24/10/2021

Indefinição política de Bolsonaro divide base fiel e atrasa planos de campanha

Uma campanha eleitoral competitiva costuma levar tempo e dinheiro para ser planejada, mas a indefinição do presidente Jair Bolsonaro em entrar para um partido tem deixado parte de seus apoiadores no escuro, enquanto adversários já costuram alianças visando à eleição de outubro do ano que vem. A ausência de sinalização de seu líder político tem agravado fissuras na base mais fiel do bolsonarismo, resultando em algumas brigas públicas na militância governista.

A recusa de Bolsonaro, desfiliado desde novembro de 2019 do PSL, em articular sua base partidária prejudica planos também nos estados, na opinião do cientista político David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB). “O Lula, que se coloca como principal adversário do Bolsonaro neste momento, já está negociando bastante com partidos e arrumando alianças nos estados, aparando arestas com antigos aliados. Os aliados de Bolsonaro, por outro lado, ainda estão num compasso de espera ou tentando articular compromissos que não têm garantia de que poderão ser cumpridos”, avalia ele em conversa com o portal Metrópoles.

Como precisa estar em um partido pelo menos seis meses antes da eleição, Bolsonaro vê sua janela se encurtar e pode ser obrigado a aceitar mais exigências do que gostaria para encontrar uma legenda. A ida para o Patriota, sua primeira opção, já foi considerada descartada até pelo presidente afastado da sigla e articulador da filiação, Adilson Barroso.

A criação do Aliança pelo Brasil, que era a esperança de muitos aliados, inclusive dos insatisfeitos no PSL, de ter um ninho partidário bolsonarista puro, também não avançou e não é considerada viável pela equipe do presidente para a próxima eleição.

Não faltam partidos dispostos a acolher o presidente da República, com dezenas de políticos com grande potencial de voto, mas o que Bolsonaro não encontra é uma sigla sobre a qual possa exercer total controle, como deseja.

Os caminhos

Enquanto isso, militantes bolsonaristas começam a buscar caminhos por si mesmos. Um partido que está ativamente procurando apoiadores do presidente da República é o PTB, de Roberto Jefferson, que “esqueceu” o trabalhismo do nome do partido, mudou estatuto e cores (saíram preto, branco e vermelho, entraram verde e amarelo) e está expulsando parlamentares que votam contra a agenda conservadora.

Jefferson já conseguiu atrair para as fileiras de seu partido figuras ligadas ao bolsonarismo mais raiz, como o deputado federal Daniel Silveira (RJ), que está preso acusado de ter ameaçado ministros do Supremo; o jornalista Oswaldo Eustáquio, que também esteve preso por causa de sua militância; e o militante Emerson Rui Barros dos Santos, ou Emerson Mitoshow, que foi integrante do grupo extremista 300 do Brasil… e também esteve preso.

Abraham Weintraub

O caminho do PTB, porém, assusta parte do bolsonarismo raiz. Um dos maiores líderes intelectuais da direita radical, o escritor Olavo de Carvalho já bateu boca (pela internet) em diversas ocasiões com Roberto Jefferson e faz vídeos desde meados do ano passado acusando o político de estar “enganando bolsonaristas”.

Bolsonaristas mais fiéis ao pensamento de Olavo, incluindo alguns com cargos no Palácio do Planalto, dão ouvidos ao guru e não poupam esforços para atacar o PTB. O principal porta-voz dessa corrente é o influenciador digital Kim Paim, que tem 300 mil seguidores no Twitter e 457 mil inscritos em seu canal no YouTube.

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