23/10/2021

“Pazuello comprometeu Bolsonaro”, diz Randolfe

O vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito da COVID-19, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), diz que o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello se saiu bem no primeiro dia do depoimento, mas não conseguiu sustentar seus argumentos no segundo dia, quando parlamentares foram mais incisivos. Na avaliação do parlamentar, o habeas corpus que o general conseguiu no Supremo Tribunal Federal para ficar em silêncio sobre perguntas que o incriminassem, na prática serviu para blindar o presidente Jair Bolsonaro. O senador afirma que a CPI segue no rumo determinado, mesmo que governistas tentem minar os trabalhos. “Os depoimentos de Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello comprometem diretamente o presidente da República. Omissão no caso de Manaus, omissão para comprar vacinas e — mais grave no caso de Manaus —, a utilização dos manauaras, dos amazonenses como uma espécie de cobaia para adotar o tratamento com cloroquina”, salientou o senador. Confira os principais trechos da entrevista do parlamentar ao Correio Braziliense.

O general Pazuello conseguiu blindar o presidente Bolsonaro?

Ele se esforçou bastante, inclusive obteve sucesso até certo ponto. Na quinta-feira, ficou impossível. Ele teve que declinar, em determinado momento, que a decisão de não intervir na saúde do Amazonas foi do presidente da República. Ficou patente que a exposição de motivos assinada pelo general Braga Netto, pelo ministro da Saúde, pelo chefe da AGU, pela chefe da CGU e pelo ministro da Justiça para edição de uma medida provisória que assumia a responsabilidade civil e resolveria o imbróglio com a Pfizer não foi subscrita pelo presidente da República. A exposição de motivos assinada por essas autoridades em 29 de dezembro é assinada em 6 de janeiro. Qual a diferença da exposição de motivos que constava o dispositivo que resolveria o imbróglio com a Pfizer para a MP? Na primeira, tinha as cinco assinaturas. Na outra, tinha a de Jair Messias Bolsonaro. Nesses dois aspectos, por mais que Eduardo Pazuello tenha feito um contorcionismo gigantesco com os fatos, ele não obteve êxito.

Ele pode ser reconvocado? Pode ser punido por isso?

Ele veio com um habeas corpus. O habeas corpus ele utilizou para proteger o presidente. Ainda sobre a vacina, ficou claro que ele subscreveu toda a responsabilidade civil para efeitos adversos com a vacina da AstraZeneca, mas não subscreveu para a Pfizer. A mesma circunstância em relação à CoronaVac. Eu terminei a CPI dando boa sorte para ele. Porque metade daqueles que estavam aí para defendê-lo, a sentença deles não vai ser dada por mim, relator, presidente. Vai ser dada por um juiz. Ele vai estar só.


O depoimento de Pazuello pode ser encaminhado ao Ministério Público, assim como aconteceu com o ex-secretário Fábio Wajngarten?

Não. Nós pretendemos mandar o relatório de uma vez só para as autoridades responsáveis. Sei que pode ser um pouco forçado, um pouco demais, mas faço minhas as alegações do senador Alessandro (Vieira) (Cidadania-SE). O papel do senhor Eduardo Pazuello lembra muito o caso de Eichmann (Adolf Eichmann, oficial nazista).

Há rumores de que senadores ficaram intimidados com Pazuello por ele ser militar.

Não sei quem foi intimidado. Quem viu as minhas inquirições, a inquirição do senador Alessandro (Vieira), do senador Otto (Alencar), da senadora Mara Gabrilli não me parece que tenha se assemelhado. Eu não fui procurado por ninguém. E mesmo que tivesse sido, o mesmo trabalho de procurar seria negativo. O mesmo trabalho que eu viria a cumprir com o senador Eduardo Pazuello, eu cumpriria com qualquer outro. O senhor Eduardo Pazuello não estava aqui representando o Exército. Estava como Eduardo Pazuello, ele foi ministro da Saúde. Ele usou roupa civil. É nessa circunstância que ele veio. Incluo o senador Renan (Calheiros) (MDB-AL). Não vejo nenhuma possibilidade de intimidação nesses nomes que declinei.


É possível acareação com a Pfizer, ou com os convocados de Amazonas e Manaus?

Vamos colocar dois fatores para uma eventual acareação: necessidade e conveniência. A acareação, temos que analisar se será útil. Em inquérito, acaba sendo de pouco uso. Conseguimos, em especial no dia de hoje, extrair as informações que eram suficientes e bastantes.

A base do governo se apresentou como vencedora nessas últimas sessões e disse que a comissão está indo pelo caminho necessário dos estados e municípios. Concorda? Que caminho deve tomar a CPI?

Conceito curioso de vencedores que têm os governistas. Os depoimentos de Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello comprometem diretamente o presidente da República. Omissão no caso de Manaus, omissão para comprar vacinas e — mais grave no caso de Manaus —, a utilização dos manauaras, dos amazonenses como uma espécie de cobaia para adotar o tratamento com cloroquina. Cada um passa a versão do jogo como lhe convém. Eu acho, particularmente, que é um 8 a 0 para a linha que a CPI tem que seguir. A realidade dos depoimentos foi transmitida pela imprensa.
O ministro entrou em contradição?Ele mentiu. É mais grave do que entrar em contradição. Contradizer é você ter dito uma coisa antes e outra depois. Ele mentiu e se omitiu. E quando foi inevitável na inquirição, acabou declinando a verdade.
Uma das contradições está na crise do oxigênio em Manaus. Pazuello fala que soube da crise no dia 10 e, depois, 7 de janeiro.

Os documentos falam no dia 7. Ele, ontem, disse dia 10. E hoje ele mesmo admitiu dia 7, tendo documento da White Martins falando dia 7, em um processo público. Tem documento em resposta oficial do Ministério da Saúde à Câmara.

Ele pode ser reconvocado?

É uma possibilidade. Mas vamos ver a oportunidade e a conveniência. E por mais que tenham esforços para tirar o rumo da CPI, ela não será retirada do seu foco. Isso porque, claramente, o que alguns querem, o que alguns pretendem é desviar o foco. É fazer manobras dispersivas. Vocês viram o começo do depoimento de hoje. Tentaram tumultuar. Eu acho natural. Quem está sendo investigado sempre procura meios para tentar obstruir a investigação.

Quais são as expectativas para o depoimento da médica Mayra Pinheiro, a “Capitã Cloroquina”?

Vai nos trazer mais esclarecimentos sobre Manaus, Amazonas, Tratcov, cobaia. Tem algumas hipóteses com que trabalhamos. A da estratégia de imunidade de rebanho; as omissões para aquisição de vacinas; e a terceira hipótese, a utilização dos manauaras e amazonenses como cobaia.

E a médica Nise Yamaguchi?

Está no calendário dos depoimentos a ocorrerem. Vamos esperar a presença dela. Queremos saber se ela sustenta as declarações que trouxe até agora sobre a eficácia do tratamento precoce.

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